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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Recantos



Restos. Nesses cantos que pingam tristezas. Esses (re)cantos desajeitados, feitos demoras inúteis, esperas no tempo. Pedaços de vida adiados, escondidos nos cantos, escondidos da vista, escondidos dos modos. Refúgios secos, com lágrimas enxutas – meias loucas, meias fúteis. Salvações de quem não soube, como eu, de existir.

Lugares da sucata, do lixo que somos, da lixeira que fazemos. Lugares de cheiros, insípidos e tão pessoais, esgotos pestilentos feitos carne podre - memórias vitais.

Esses restos de nós, da nossa incomensurável insegurança sofregamente imprudente, trava-línguas da esperança que tanto se quer e não se ofende. Esconderijos da nossa falta de expressão, da ausência de pena – ausência de coração.

São grutas submersas, espelhadas de ganância – bugalhos de fúria caídos do céu, caídos da estância.

Estrume. Restos reciclados do que seremos. Reutilizáveis – as nossas queixas. Que é o que esta imunda casa guarda. Beco sem saída com toneladas de odores – fruto da história podre, desfeita, desusada dos nossos amores.

Num canto desencantado aqui jaz o nosso corpo – mouco – semente da esperança, da vida, do amor louco.  

sábado, 24 de dezembro de 2011

A vocês - mensagem


Véspera de Natal.

Hoje é diferente. Sempre é.

Podia utilizar qualquer dos dias para dizer as próximas palavras. Mas hoje, por ser hoje – tornam-se especiais e carregam mais magia que nos outros dias, em outras horas. Eu quero que estas sejam diferentes, repletas de sentimento e desenhadas com a alegria. Gostava que sentissem o que eu sinto, apenas neste momento. Os outros são águas passadas.

Deve ser das primeiras vezes que me custa escrever as palavras, agora ao imaginá-las como um castelo perfeito e dinâmico vejo que no papel apenas retratam uma cabana de madeira já velha. Mas é o meu objectivo, as coisas humildes sempre são as melhores.

Eu apenas queria agradecer. Um agradecer especial. Carregado. Um símbolo.

Dizem que basta acreditar e lutar para o sonho se vir a concretizar. Eu digo que não. Aliás, um agradecer não chega. A vocês, todos os meus leitores e amigos, que lêem o que escrevo e me dão apoio para continuar, a vocês – um obrigada não é presente nem oferta, não chega simplesmente.

Não basta apenas gostar de escrever para as palavras saírem. É preciso apoio e força, que me encarregam de dar. Graças a vocês, que lêem isto, as oportunidades foram surgindo como as andorinhas na primavera. E não as devo a mim, mas a todos aqueles que pegaram na minha caneta e me forçaram a escrever no papel aquilo que a minha alma não quer fazer entender.
Faltam-me as palavras, já houve tempos em que também me faltavam. Insistiam em permanecer somente na minha memória como todos vocês já permanecem, esse é o meu único e feliz problema. Que sejam sempre estes a acompanharem-me.

Que tenham um feliz natal e um bom ano 2012.
A minha vida não seria o que é agora sem o fruto da vossa esperança, que começa agora a brotar.
Em nada destas frases vejo o meu total agradecimento e alegria para com vocês, mas são estas simples e humildes palavras que constituem aquilo em que me tornei.

Amizade é a principal textura do tecido que é a vida.
Repito, gostava que sentissem o que eu sinto. 
Por tudo - obrigada.

domingo, 23 de outubro de 2011

Memórias Suicidas


São três da manhã do dia que nunca chegou. Encontro-me sentada sobre uma pilha de papéis desorganizados, formam um ambiente hostil e dão um certo ar de instabilidade a tudo o que se possa encontrar por ali. Ironicamente é o único lugar onde gosto de estar – frio, nada aconchegado, solitário e nostálgico. Sinto-me um pouco assim, as minhas memórias incomensuráveis teimam em ser livres, mas quem sou eu para lhes dar asas se nem pés posso oferecer.

Esta luta interna e paciente vai esperando pelos segundos que nunca acontecerão. Obrigo-me a ser escrava e submissa de memórias feitas em pegadas anos antes, sentimentos de anos antes, lágrimas de anos antes. Mas que perduram e não se atrevem a fugir de mim. Por estas alturas desejo ser tudo o que ninguém quer ser, e imagino-me repugnante para me deixarem, isto que me assombra. Que me deixe.

E sentada no local onde estou pouco há mais a fazer a não ser pensar, em tudo o que rastos de actos mal feitos fizeram notar e que insistem, manipulam-me a permanecer. As marcas na pele, no coração e no pensamento continuam vivas e sem maneira de morrerem ou desfalecerem, já deixei de acreditar que cometeriam suicídio, e eu própria não possuo as forças para as matar. Não me importo que seja crime matar memórias, prefiro-as mortas e enterradas, talvez em cinzas, do que a despertarem dia sim, dia não o ser que há em mim que há anos que escondo.

Vou continuando à espera que elas, as memórias, envelheçam e comecem a perder a sensibilidade aos sentidos, vou ficar aqui, sentada, à espera de as ver cegar, de ficarem surdas e mudas até perderem o tacto e depois ver desvanecer os pensamentos de uma vida que elas tanto quiseram guardar. Suplicar-me-ão para as matar, ou dar asas, pelo menos para abafar as dores da velhice que a ninguém nem a nada escapa. Nessa altura eu continuarei sem forças, mas elas, fortes e no auge do sofrimento cometerão suicídio. Piedosamente eu as reconfortarei.  

São cerca de quatro da manhã do dia que não tem minutos nem segundos, mas que ingenuamente eu continuo a contar. Não sabendo o porquê, vou ficando à espera das asas que levarão metade da minha alma.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Amazónia


 Dêem-me lágrimas para chorar,
Longos rios para as percorrer,
Dêem-me um barco para os atravessar
E a coragem para as debater.

Dêem-me fogo que arde e não se vê,
Caminhos cegos para me enganar,
Aventuras incessantes que ninguém prevê,
Razões para poder navegar.

Mostrem-me as cascatas ocorrentes,
Linhas marcadas por viragens,
Situações dolorosas indecentes
Que fazem as águas correrem sem margens.

Levem-me na descoberta,
Da Amazónia do meu coração
- Há tantos rios secos
Que depressa transbordam com um furacão.

Dêem-me agora o fato de exploradora,
O equipamento necessário
- Amor, coragem e força amadora
Legais e sem preçário.

Correntes fortes avistarei,
Doenças raras farão parte no fim,
Mas nem por isso renegarei
A descobrir o que falta de mim.

Venham rios, encham-se
Como vos quero enchidos,
Transbordem e fortaleçam
Aquilo que chamo de pedidos.

Agora, pronta para a viagem começar,
Que venham tempos tropicais,
Dêem-me chuvas torrenciais.
Façam-me navegar pelo meu coração,
Esculpido pelas ondas e doenças
Que vêm e vão…

domingo, 9 de outubro de 2011

O Retrato que Não Pintei


Comprei a tela para te pintar,
As tintas para te descrever,
Usei pincéis para te imaginar
E assim com água, te fiz parecer.

Num respirar supérfluo imaginei
Que figura iria eu fazer…
- Se a tua alma em que acreditei
Ou uma outra que me fez sofrer.

Talvez por tempo indeterminado
Fiz a minha obra, de bom grado.
E no fim de mais esta conquista obter,
O teu retrato lindo, eu fiz valer.

Expu-lo para o mundo,
Todos o observaram
Analisando-o com um olhar profundo
Como que me alertando de que me enganaram.

Então docemente o observei,
E reflecti
- Aquele não era o retrato que pintei,
Que falava sobre ti!

Mas como isto aconteceu?
Alterarem-no tão de repente?
Como não consegui eu reparar
Que a tua figura estava a mudar propositadamente?

Olhei para ele mais uma vez,
E no canto da sua frescura
Evoquei o nome do quadro,
Feito a pinceladas de amargura.

Aquele não era o retrato que pintei,
Aquilo que imaginava,
Era o teu “eu” que ocultei
E que por ingenuidade, eu não acreditava.

O meu quadro não era assim,
Era mais harmonioso e belo,
E agora terei de me contentar com este por fim
- O dito verdadeiro, nada singelo.

Que pinceladas tão aborrecidas,
Marcadas por desilusões
- Mostram acções meias vividas
Governadas pelas tuas confusões.

Preferia o retrato feito por mim,
Vindo da terra dos sonhos.
Mas eu sei que este é o real, enfim,
A tua verdadeira caracterização sem pressuponhos.

Agora que está exposto, nada há a fazer,
A não ser intitulá-lo de “Retrato que não Pintei”
- Hoje em dia o meu único quadro
Em que sempre confiei.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O azar de ter sorte


Pode não ser muito, pode ser só um pouco, a visão do horizonte profundo onde tu gritas como um louco. Pode ser um resto, um começo ou um meio, o certo é que no fim tudo se resume à sorte lançada em cheio.
E o tempo passa, dizem ser remédio, mas que tempo é esse que não é o meu onde apenas avisto tédio? E o tempo continua, lento como sempre, rápido como tudo…Apanha-nos nas suas armadilhas onde só escapa aquele que é sortudo.
E o relógio conta as horas, por vezes até os segundos, não se poupa nas demoras nem se aflige com a rapidez, este contador ingrato até talvez nem se dê com a lucidez.
Vou então pedir ao que me transcende, que faça o que for preciso, que me emende, não sei o que é, não tem definição…mas peço-lhe, imploro-lhe que pare este tempo similar a um furacão.
E para todos aqueles que afirmam que a sorte não deve haver, tenho como prova o meu histórico que dita que comigo ela não se fez comprometer. E para todos aqueles que dizem que azar é mero mito, venham-me procurar - quero-vos mostrar como se fica depois de anos a tentar escapar.
Hoje o tempo passou por mim, contou os segundos e nem reparei, talvez amanhã venha a contar os milésimos e daí ressuscitarei.  Podem ser anos a fugir, noites a sonhar, meses a progredir e depois atrás voltar. Podem ser horas desperdiçadas, segundos esquecidos, mas em cada um há algo que me fascina, os milésimos incontáveis, e cada um me domina.
Agora sei, mais do que percebi, que a solução já a alcancei e nem isso senti. Agora sei, tempo não conta, sorte não compromete, estarei sempre por minha conta e ao sabor da vida o azar me remete. Agora entendo - sou vida, tempo, relógio, uma alma crescendo!
E quando te vires atraiçoada pela sorte, vira-te para o azar, esse compreende-te e dele apenas o pouco podes esperar. Um dia mais tarde me perguntarão se alguma vez tive alguma desilusão e eu orgulhosamente proclamarei que o azar foi a única coisa com que na minha vida me deparei.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Minha rosa


Minha rosa é minha escravidão,
Meu alento,
Minha maldição.

Minha flor tão falsa,
Tão modesta,
Simples como a salsa,
Rebelde como a giesta.

Minha rosa,
Meu amor de duas faces,
Que tanto me persuades,
E assim…me invades.

Porque é nos teus enganos
Que me sobreponho.
Tu, que és polvilhada de mil danos
E a mil e uma cores eu não me oponho.

Irónico como és dada como sinal de amor,
Com os teus espinhos cravados
E a tua irradiante beleza
Finges ser um sinal de louvor.

Irónico como és tu o encanto das raparigas,
Já que dada com paixão,
Mostras as tuas garras
E ensinas-lhes as intrigas.

Minha rosa,
Pecado de tantos amantes.
Porque és tu o símbolo do amor
Com essa tua fachada,
Que ao mínimo toque provoca dor?

Minha rosa,
Sinal de tantos pecados,
Se ao menos fosses só minha
Eu protegia-te de tantos desagrados.

Porque com certeza já assististe
A tamanhos horrores,
Provocados por desilusão
Ou caídas de amores…

Minha rosa
- Definição universal do que é amar,
Agora percebo
Porque é a ti que te chamam
Para explicar a paixão
E o que dela têm de acartar.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Eu sei


Eu sei que o tempo não passa,
Tão rápido como devia passar,
Sei que toda a tristeza repassa
Aquilo que devia negar.

Eu sei que a chuva não molha
Aqueles que não se deixam molhar,
E que as tinhas não pintam
Aqueles que não se querem pintar.

Às vezes de tanto saber
É que vem o segredo do meu mal,
Ao menos se a sabedoria fosse pecado
Seria tomado como capital.

Sei de cor as estrelas que contei,
Decorei as músicas que aprendi,
Fugi às lições que acartei
E de tanto saber, me arrependi.

Mas é este saber que mais odeio,
O saber de não ignorar,
A experiência onde vagueio
Que a inteligência não consegue alcançar.

Sei que tudo move,
Seja força ou sacrifício,
E ainda mais sei o que me comove
- A loucura internada num hospício.

Eu sei que é mal o pensar,
Sei o que deve mudar.
E é este saber que mais odeio,
A ignorância a querer ignorar.

Sei que os corações não voam,
E que o amor é mero sentimento.
E tanto sei, tanto dói…
Acartar a intelectualidade deste argumento.

Eu sei,
Que de tanto saber perdi tudo,
E de tanto lacrimejar
- Me ignorei.

Sei,
Mais do que não sei
-É a dor do não saber.
E assim a ignorância é tudo
O que sempre saberei ou virei a perceber.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Maria

1912, Lisboa.

- Minha Mãe, por favor, peço-lhe …

- Matilde, a menina já sabe o que penso sobre isso. Não, nem pensar. Se o seu pai soubesse nem queria ver, sabe o quão mal isso lhe fica, suja o nome da família em instantes, tudo por um rasco rapaz que vende jornais. Olhe para o Miguel, ele sim seria um bom companheiro, não seja insolente, pense bem. Está a estragar a sua vida com esse rapaz de soslaio. Que maus modos, que rude que ele é! Não sei onde a menina lhe foi buscar o encanto, não saiu ao pai com certeza, esse era um cavalheiro.

Dizia a Dona Maria Isabel Augusta Albuquerque à sua filha, lembrando-se dos bons tempos que tinha passado com o pai do infeliz amado de Matilde. Questionava-se como tinha ele passado de um cavalheiro, dono das províncias do norte, a um farrapo que por ali andava cambaleando e sendo acartado pelo seu filho, Duarte Cabral. Ninguém sabia da história destes dois amantes, por vezes achava-se ingrata com Matilde, porquê proibi-la de amar um sujeito pobre, se também ela já amou e continua amar. Por sinal vêm os dois da mesma família, pensou que talvez fosse genético o encantamento pelos Pereira Cabral. Não quis continuar mais com estes pensamentos que lhe deliciavam as memórias, lembrava-se das corridas pelo campo com o pai de Duarte, José – o seu eterno amado. Lembrava-se dos passeios de carroça que faziam vibrar a sua jovialidade e das tardes passadas somente a conversarem, como tudo tinha sido tão bom. Achou-se enquanto pensava nisto numa situação irreversível, já era velha, tinha uma filha de 20 anos, a sua querida Matilde que era perfeita tanto pelos seus cabelos castanhos que irradiavam madeixas douradas ao sol, como pelos seus olhos verde água ou pela sua simpatia, generosidade, amabilidade com os outros e determinação. Só desejava que ela fosse filha de José, o seu amado. Infelizmente foi obrigada a ter de viver com um homem carrancudo e inconsistente, demasiado tradicional, com os respeitos da família em primeiro. E a Maria, como boa mãe, teria de honrar isso. Não poderia decerto deixar a sua filha ir ter com Duarte, seria o fim, de todos. Mas o seu amor a José e as memórias que a assaltavam e lhe roubavam o coração fizeram-na reconsiderar. Tudo o que ela dizia acerca de Duarte era mentira, também Maria o adorava, principalmente porque tinha os traços de José tanto no rosto como na personalidade. Miguel, o rapaz jovem e rico da cidade queria Matilde, mas este tal como o seu marido não sabiam dar valor às coisas, às pequenas coisas. Maria sabia que por agora isso podia ser insignificante mas como ela já experienciou iria ser o pesadelo de Matilde todos os dias ao acordar. Jamais queria isso para uma filha sua.

“Quero que a minha filha seja feliz.” – Pensou.
E com cuidado para que as aias não ouvissem ou se ouvissem, pelo menos que fosse algo um pouco correcto, disse:

- Vai, quero-te em casa às quatro da tarde, tem muito cuidado. O Duarte ama-te mas o amor às vezes é traiçoeiro, nunca se sabe o que vem depois. Uma alma apaixonada é um corpo indefeso. Agora vai, rápido. O teu pai não te pode ver. Leva um vestido simples, não um com os bordados da família, vai por mim quando te digo que é melhor ires confortável do que esse teu garrido vestido balão.

- Oh minha mãe, não sei como te posso agradecer. Eu amo-o. A senhora sabe isso, ele é a minha força e ao mesmo tempo o meu ponto fraco. Não conseguiria viver sem ele. Muito obrigada por esta oportunidade, minha mãe – amo-a a si ainda mais decerto. Às quatro aqui estarei.

Deu-lhe um beijo e despediu-se de Maria. Mas antes de ela partir disse-lhe ao ouvido sempre com o cuidado de ver se as aias estavam por perto:

- Vai-te! De vez meu amor, não mereces a ingratidão desta vida que me foi escolhida. Foge com Duarte para bem longe, vivam, amem…como eu não pude amar. Vai-te! Estarás sempre no meu coração Matilde minha linda filha. Não te preocupes, do teu pai eu trato.

Assim que viu Matilde sair pelas portas do seu jardim as lágrimas escorreram-lhe do rosto. Só desejava terem-lhe dado a mesma oportunidade quando também ela tinha 20 anos, ao invés disso foi obrigada a viver uma eterna solidão para o resto da sua vida. Não se importa que nunca mais veja Matilde, porque ela sabe que estará sempre bem, na harmonia do seu amor. Alegre e nunca se sentido sozinha com um vazio incapaz de ser preenchido.
Foi a última vez que a viu, a sua perfeita filha, que nasceu dentro dela e que dela fará sempre parte. E assim viu-a partir…

1928, Minho

- Amo-vos.

Foram as últimas palavras ditas por Maria, escaparam da sua boca com um enorme esforço. O seu último suspiro aplicado nelas, cheias de valor e boas intenções.
Morreu já velha, dona de uma experiência e solidão nata, feita historia em seu nome morreu em paz. Muito viveu depois de se separar de Matilde, mas pouco proveitoso foi sem ninguém que ela amasse por perto.
Quando o seu marido morreu sentiu-se rejuvenescida e decidiu procurar José, Matilde e Duarte. Utilizou todas as forças que uma idosa pode ter para os encontrar. Em 1927 encontrou finalmente José, no Minho. Sepultado. Que desgosto enorme sofreu, preferia terem-lhe espetado dez espátulas de madeira pelo coração adentro do que saber de tal notícia. Mas mesmo assim não desistiu de sua filha e seu correspondente amado, que por aquela altura já deviam estar casados. Acontece que gastou toda a sua porção da herança a procurar José e então, pela primeira vez em toda a sua infeliz vida, decidiu lavrar a terra já com 65 anos de idade para ganhar uns dinheiros, o suficiente para poder sobreviver e conseguir ir ao encontro da sua filha antes de morrer. O único objectivo na sua vida para além de viver feliz para sempre que não conseguiu realizar. Vendo então que estava a morrer aos poucos, encaminhou-se para Minho a 16 de Março de 1928, data da sua morte. E quando o relógio batia as doze badalas, fechou os olhos para sempre junto ao seu amado José. Seria uma morte perfeita não fosse a ausência de Matilde. No entanto morreu com ela nos seus últimos pensamentos, já era suficiente.


Pouco meses depois vinha Duarte visitar seu pai à campa quando se deparou com o corpo em decomposição. Imediatamente chamou Matilde, sua companheira de uma vida e seu eterno amor, viviam felizes - era o que Maria queria e assim foi.
Choraram a sua morte, também Matilde andou à procura de Maria, infelizmente estas não se encontraram pelo caminho. Ambos objectivos inalcançados. Contudo havia uma carta, junto ao peito de Maria, em cima da sepultura de José. Estava impressionantemente conservada, seria obra de um milagre certamente. Tinha uma letra esguia e trémula, notava-se que quando foi escrita poucos meses antes, já as forças eram quase nulas. Mas era bom saber que Maria fê-la considerando que eles a iriam encontrar.

“Meus queridos amores,

Agora que lêem isto, de certo se aperceberam que parti para outro mundo, mas estou bem não se preocupem, estou junto a José, teu pai caro Duarte. Sempre o amei, apesar de ter sido um amor impossível, dele e da minha vida acartei muitas lições. Escutem-nas antes de me enterrarem nas vossas memórias:
 - Aprendam a viver com aquilo que têm, é precioso. Sejam felizes com aquilo que vêem, é mágico.
- Não existem erros, apenas lições. Como esta que vos ensino.
- Nasceram como originais, não morram como cópias. Não tentem ser o que o outro foi, vocês podem ser muito melhores, e são.
- Quando quiserem algo que nunca tiveram terão de fazer algo que nunca fizeram. Corram riscos. A vida é um deles. Procurem as oportunidades.
- Se não conseguirem rir-se de vocês próprios nunca terão o direito de se rirem de outros.
- Se não avançarem estarão sempre no mesmo lugar, se quiserem uma resposta terão sempre de perguntar.
- Sem arrependimentos, a vida já vos dá demasiados.
 E o mais importante de tudo – façam história. Ela existe para ser feita.

Deixo-vos com o meu coração em paz e repleto de bons momentos, pois só esses importam.
Sejam felizes, não há maneira dos outros, mas à vossa.

Maria Isabel Augusta Albuquerque”

A verdade é que Maria fez história, a sua mais importante lição cumprida à letra.