- É mesmo assim. Aguenta-te.
Disse-me aquele sujeito que nunca aguentou. Nem vai. Cobarde pessoa
cujo nome não me lembro ou não quero lembrar, porque sei lá, acho melhor assim –
aguentar, sozinha.
Sozinha, só - é melhor, se não é melhor é mais prudente e agora é
tempo de dever alguma coisa à prudência que já anda a arrastar os meus sarilhos
há demasiado tempo e odeio coisas que se arrastam. Agora odeio, só agora.
- Estás tão diferente.
Sim, só agora porque cresci. Dizem que cresci - porque eu não noto
diferença. Pensando bem troquei as molas por elásticos e a televisão por
livros, mas isso para mim não é crescer – somente trocar hábitos. Crescer é
aceitar a prudência, renunciar a algumas coisas e prescindir de outras, é viver
mais tentando menos, ou tentar mais vivendo menos, já nem sei.
A questão é que agora acarto as minhas consequências, porque dizem que
já está na altura de o fazer. Então que tudo passe rápido, que os ventos soprem ferozmente e que os segundos corram em vez de andarem, que passe tudo tão
rápido. Esse tudo que é a dor dos anos passarem, das ações terem penas que
duram anos, às vezes perpétuas.
Ninguém está preparado para a dor, eu não estou, odiava estar e espero
nunca estar. Porque quem está- cresceu. E acho que não quero crescer, não no
sentido que todos esperam, não da forma que todos sonham, não dessa maneira
solitária. Mas da minha. Porque da vossa quem cresce tenta mais e vive menos.
Eu não quero viver menos, mas sim aproveitar mais. É por isso que me
aguento, como me dizem para aguentar. Primeiro sigo as pisadas de uns e depois faço
só aquelas que eu posso dar. E isso é crescer, isso é mudar.




