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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Recantos



Restos. Nesses cantos que pingam tristezas. Esses (re)cantos desajeitados, feitos demoras inúteis, esperas no tempo. Pedaços de vida adiados, escondidos nos cantos, escondidos da vista, escondidos dos modos. Refúgios secos, com lágrimas enxutas – meias loucas, meias fúteis. Salvações de quem não soube, como eu, de existir.

Lugares da sucata, do lixo que somos, da lixeira que fazemos. Lugares de cheiros, insípidos e tão pessoais, esgotos pestilentos feitos carne podre - memórias vitais.

Esses restos de nós, da nossa incomensurável insegurança sofregamente imprudente, trava-línguas da esperança que tanto se quer e não se ofende. Esconderijos da nossa falta de expressão, da ausência de pena – ausência de coração.

São grutas submersas, espelhadas de ganância – bugalhos de fúria caídos do céu, caídos da estância.

Estrume. Restos reciclados do que seremos. Reutilizáveis – as nossas queixas. Que é o que esta imunda casa guarda. Beco sem saída com toneladas de odores – fruto da história podre, desfeita, desusada dos nossos amores.

Num canto desencantado aqui jaz o nosso corpo – mouco – semente da esperança, da vida, do amor louco.  

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Há coisas que nunca desenhei



Hoje é o dia de esvaziar o lixo.

Aquele dia, que eu por sinal odeio, em que revejo velhas memórias, amarrotadas e deixadas à deriva. Não posso negar que o fiz de propósito, prefiro revê-las a deixá-las mesmo ali, indecisas, sem lugar para onde irem nem ninguém onde pousarem. Às vezes é bom imaginar o seu destino, aquele que habita nos nossos sonhos e não temos coragem de passar à realidade, quanto mais ao papel. É por isso, que hoje tenho de deitar o lixo fora. Já vai cheio de papéis amarrotados, cheio de linhas e riscos que em tempos foram sonhos e que hoje são outra vez mero carvão, farrapos.

Lembro-me de desenhar rectas, eu adorava rectas. Quanto mais olhava para elas, mais me pareciam imutáveis, mortas, demasiado perfeitas. Deixei de gostar. Deixei de traçá-las, eu sabia, no fundo, que nenhuma recta é suficientemente recta. Sabia ser impossível passar à realidade coisas que nem o papel gostava, nem os meus olhos. O meu balde foi enchendo. Dezenas de papéis amontoaram-se, amarrotados, com linhas direitas, sempre com o mesmo sentido, o mesmo caminho, as mesmas decisões - previsíveis, nada humanas.

Então foi dia de deitar tudo fora e começar de novo. Tudo a lápis. Mas a borracha também não faz parte dos sonhos. Não se apagam, desvanecem-se com o tempo – como o carvão.

Achava que entrar no lado perigoso da vida era desenhar riscos, mas para mim, eram sinal de mais, de menos, de tanto e por vezes pouco. Representavam a minha confusão, os meus amores desalinhados e imprevisíveis, o meu pensamento desarrumado e sem gavetas que o organizasse. Era o impensável, a vida num papel. A revolta. Eu lembro-me de adorar a revolta.

Não durou muito até confiar, deixou de ser algo pessoal e de modos suaves fui deixando os papéis na mesa, para quem passasse. As respostas não demoraram a chegar, os riscos eram feios – sonhos impossíveis, estúpidos, sem perfeição. Era o que achavam dos meus lindos desenhos (riscados). Eram o carvão da minha alma, a energia que me movimentava. Mas todo o carvão se esgota e todo o sonho degenera sem convicção. Mais uma vez, tive de sair à rua, envergonhada, com mil olhos postos no que acartava, o balde cheio pronto a esvaziar.

Sim. Hoje também é dia de ir ao lixo. Deitar o carvão fora. Posso desenhar sem lápis e apagar sem borracha. As linhas rectas são o que me travam a imaginação contudo são o sustento do meu equilíbrio. E os riscos, esses, continuam lindos, não importam o que pensam. São os meus riscos, desenhados sem o carvão que se desvanece, nem perseguidos pela tentação de uma borracha. São só riscos, abstractos, que talvez um dia, quem sabe, sejam mais que pontos invisíveis.

Vocês, sonhos feitos em desenhos, rabiscados e mal conseguidos, enchem-me a memória, que sabem ser o lixo da minha futura vitória.
Nunca se esgotem, o meu balde tem capacidade infinita.

sábado, 29 de outubro de 2011

Perdida


Gosto de me perder. 

Sempre gostei. Hoje principalmente. Apetece-me vaguear.

Perco-me nas derivas do fruto proibido. Ele cega-me, o pecado, e agora não consigo perceber que caminho percorro. Estou perdida. Devia gostar, neste caso não. Odeio, profunda e desesperadamente. É como olhar para o céu sem ver a estrela polar, olhar para o horizonte e não ver uma linha que limita o infinito, é caminhar numa estrada sem sinais de orientação. E fico doente, sacrilégios de ações que não se viram realizadas. Fico cega, e agora estou a começar a sentir-me muda. As palavras escapam-me, ou fogem do que sou. Ainda não percebi - também ando perdida nisso.

Então caminho não sei bem por onde, e vejo não sei bem o quê, às vezes falo - mas não me escutam. E tenho pernas, mas não as uso. Tenho olhos, que não vêem. Tenho boca, que não fala. E asas, que não levantam. 

De tantas formas de encontrar o desnorteamento vim eu escolher esta, onde tu – desilusão, me afogas, deixas-me sem o que preciso para ver. Escondes os sapatos que comprei para andar, e coses-me os lábios para não falar. E queimas, todas as historias que eu poderia fazer voar, todas as palavras que me faziam imaginar. 

Reparei agora onde me encontro. Está escuro e frio. Ouço vozes que respondem a perguntas que não fiz. 

Não sei se é de mim…mas acho que estou perdida.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Minha rosa


Minha rosa é minha escravidão,
Meu alento,
Minha maldição.

Minha flor tão falsa,
Tão modesta,
Simples como a salsa,
Rebelde como a giesta.

Minha rosa,
Meu amor de duas faces,
Que tanto me persuades,
E assim…me invades.

Porque é nos teus enganos
Que me sobreponho.
Tu, que és polvilhada de mil danos
E a mil e uma cores eu não me oponho.

Irónico como és dada como sinal de amor,
Com os teus espinhos cravados
E a tua irradiante beleza
Finges ser um sinal de louvor.

Irónico como és tu o encanto das raparigas,
Já que dada com paixão,
Mostras as tuas garras
E ensinas-lhes as intrigas.

Minha rosa,
Pecado de tantos amantes.
Porque és tu o símbolo do amor
Com essa tua fachada,
Que ao mínimo toque provoca dor?

Minha rosa,
Sinal de tantos pecados,
Se ao menos fosses só minha
Eu protegia-te de tantos desagrados.

Porque com certeza já assististe
A tamanhos horrores,
Provocados por desilusão
Ou caídas de amores…

Minha rosa
- Definição universal do que é amar,
Agora percebo
Porque é a ti que te chamam
Para explicar a paixão
E o que dela têm de acartar.