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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Já nao me mudo




Não sei se as coisas mudaram, ou se sou eu que já não me mudo.
Não sei se é de mim, se é de outro. A cada céu vermelho que atravessa o horizonte diariamente eu sei que foi mais um – sem mudança. Farto, carregado, com o peso de me livrar de mais um dia longe de ti. Ou longe – quem sabe – de mim.
E eu consigo sentir esse cheiro a novo, sabor a mais – talvez a menos. Consigo tocar-lhe, por momentos, consigo vivê-lo. Já sabia que era saudade antes de a ser. Sabia dessa mudança que me mudou, nada me desfez, nada deteriorou.
Dizem que o tempo tudo leva- ou derruba sobre nós. Quanto mais, eu esperava que levasse esses restos de mim - flácidos e já com sinais de velhice. Ao menos que me enterrassem essa nostalgia embrenhada na pele, que já não é minha, que se escamou e caiu e que ainda tanto se agarra, tanto me necessita. Sinal da mudança que nunca veio, ou que passou e se esqueceu de mudar.
Encanta-me essa brisa que por mim passa e não para, que de mim foge e não espera. Que de mim exige e não oferece. Ainda tentei mudar os hábitos, trocar costumes, forçar as coisas. Pressionei os dias a serem véus de escuridão, exigi essa passagem rápida pelas coisas, queria ser como a mudança – estonteante e imune – queria ser eu a responsável.
De tal modo, que de mudar nada tive. Quando quem quer é quem pede, as coisas simplesmente não querem e não tornam. Não fazem. Não mudam.
Não sei. Não sei se é de mim, se de mais. Não posso saber. Mas sinto esse novo ar, nova brisa, enterros por fazer, peles por escamar, memórias por arquivar. Ou as coisas mudaram, ou fui eu que me mudei.
 E a cada céu que atravessa o horizonte eu sei que foi mais um - com o peso de me livrar de mais um dia longe de mim. Ou longe – quem sabe- de quem eu fui.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Recantos



Restos. Nesses cantos que pingam tristezas. Esses (re)cantos desajeitados, feitos demoras inúteis, esperas no tempo. Pedaços de vida adiados, escondidos nos cantos, escondidos da vista, escondidos dos modos. Refúgios secos, com lágrimas enxutas – meias loucas, meias fúteis. Salvações de quem não soube, como eu, de existir.

Lugares da sucata, do lixo que somos, da lixeira que fazemos. Lugares de cheiros, insípidos e tão pessoais, esgotos pestilentos feitos carne podre - memórias vitais.

Esses restos de nós, da nossa incomensurável insegurança sofregamente imprudente, trava-línguas da esperança que tanto se quer e não se ofende. Esconderijos da nossa falta de expressão, da ausência de pena – ausência de coração.

São grutas submersas, espelhadas de ganância – bugalhos de fúria caídos do céu, caídos da estância.

Estrume. Restos reciclados do que seremos. Reutilizáveis – as nossas queixas. Que é o que esta imunda casa guarda. Beco sem saída com toneladas de odores – fruto da história podre, desfeita, desusada dos nossos amores.

Num canto desencantado aqui jaz o nosso corpo – mouco – semente da esperança, da vida, do amor louco.  

domingo, 22 de abril de 2012

Não que quisesse

Vivia numa realidade sem noção,
Não que quisesse,
Mas porque já não a sabia sentir.

Já não a sabia tocar,
Nem comovê-la,
Nem nada
- Nem a amar.

Já não sabia surpreendê-la
E isso não foi surpresa.
Quem se alimentava da fome
Um dia havia de se tornar
Na sua própria presa.

Chamem-no de louco cativo,
Que louco ele assim é:
 Ri-se chorando
 Remando contra a maré.

Se criou um atalho à sua vida
Fê-lo para se prender
- Viva numa realidade sem noção,
Não que quisesse,
Mas porque nada mais havia a perder.

domingo, 18 de março de 2012

O dia (a)normal


Sentia um aperto estranho na barriga.
Levantou-se da cama e olhou para o espelho do seu quarto na esperança de descobrir o que o fazia sentir-se assim- diferente, estático, firme, bonito, feio, confuso, zangado, romântico, desamparado…

Sentia-se…nem sabe como. É verdade que já não comia há algum tempo mas não seria isso que o faria sentir-se um cúmulo e obriga-lo a olhar para a sua imagem refletida no espelho, acompanhada pela desilusão. Também era verdade que já não falava com qualquer alma viva fazia agora duas semanas, mas não seria isso que o obrigaria a sair de casa. Estava bem assim, ou achava que estava.

Nos últimos dias tinha-se limitado a comer bolachas de água e sal, para disfarçar a fome, e a olhar para a moldura disposta sobre a mesa-de-cabeceira, já com o vidro partido e a foto meias que rasgada.

Olhou para o lado só para confirmar as suas suspeitas.

Bolas.”

Pensou – ao ver a garrafa de whisky vazia, mais uma vez, e não saber ou não se querer lembrar de onde e o porquê de a ter despejado.

Há duas semanas consecutivas que estava ali, no refúgio do seu quarto, a beber tudo o que havia na despensa e a falar com uma foto que mais memória não era, para ele, mais memória não seria. Há duas semanas que sentia um aperto estranho na barriga, um vazio incontornável, uma estrada inacabada, uma falha.

Todos os dias acordava como se fosse um novo dia – normal – tomar o pequeno-almoço, uma hora de trânsito na cidade, emprego, outra hora de trânsito, supermercado e casa.

Minutos depois, ao tomar consciência da realidade voltava esse vazio, igual ao do dia anterior, apagado da memória pela bebida. Apercebia-se então, que aquele, não ia ser um dia normal, nada disso. Já se tinha tornado uma rotina questionar-se todos os dias do porquê da moldura adormecer ao seu lado, e porque razão a foto estava sempre húmida e os seus olhos inchados e vermelhos. Ele só queria esquecer o que se tinha sucedido, refugiou-se da maneira que pode e deixou de tomar as rédeas do seu destino.

Passada a fase da aceitação, que acontecia por volta das 8h e prolongava-se até às 12h, coisa menos coisa, entrava num transe quase que inexplicável. Colocava-se sobre o parapeito da janela, focava um ponto no céu e assim permanecia durante horas a fio imaginando como seria…

“Se não tivesse acontecido, se eu estivesse mais atento, se eu fosse super-homem, se eu…

Culpava-se – então era o momento de esquecer mais uma vez, de perder a memória até ao próximo dia e fazer tudo de novo amanha como se nada soubesse, como se o hoje não existisse e o depois não estivesse em causa. Como se o seu cérebro não conseguisse armazenar a informação e cair na realidade.

Aquela moldura sempre lhe tinha sido especial, mas agora, mais que nunca, era a única solução para relembrar esse passado que ainda era tão recente.

E durante toda a noite, deitado na sua cama, as memórias avivavam-se, a moldura tomava vida e ele retrocedia no tempo. Para os dias de felicidade e para o tempo em que era ingénuo o suficiente a ponto de pensar que vazios como os que sentia agora não existiam. À noite ele sonhava. A verdade é que os sonhos tornaram-se a sua vida, deixou-se dominar por ilusões, começou a viver no passado. Pobre coitado que substituiu a vida por umas lágrimas.

E por não querer acreditar, por insistir em permanecer num mundo paralelo – voltou a acordar novamente no seu quarto. Regressou à Terra naquela nova manhã, esqueceu tudo o que fez no dia anterior e voltou, mais uma vez, a pensar que aquele era um dia normal.

- Querida, deixaste-me adormecer! Sabes que não tenho paciência para estar horas a fio no trânsito da cidade.

Só que aquele não era mais um dia normal.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Eu dizia saber


Eu digo que sei o que sinto. Mas não sei de manhã que sapatos escolher.
Eu digo que sei o que quero. Mas a minha vida é feita de escolhas duvidosas, saltando de caminho em caminho.
Eu digo que sei – tola que sou.
Eu não sei nada. E de que vale saber? Ao menos se pudéssemos decidir, sonhar ou ainda imaginar com uma venda nos olhos… Os pormenores não existiriam, não passariam de um conceito abstrato impossível de alcançar porque a vida tornar-se-ia aquilo que nunca foi – viver com substância. Sabê-lo fazer.
Nós sabemos demais, procuramos demais, não entendemos que o melhor está mesmo ao nosso lado – carregando as dores, as lágrimas, as virtudes que partilhámos. E rastejam de carga tão grande que levam – a nossa – só para nos acompanharem no caminho que dizemos que queremos, que dizemos sentir ser o correto.

- Onde estamos? Porque não me contas onde estamos? Já posso tirar?

Perguntei um dia.

- Não ainda não, ainda não é tempo.

Disse-me alguém que não conhecia mas que de certo modo me era familiar. Que me suportou em todo o caminho de cegueira que atravessei. Eu sabia que ela estava corcunda, o trabalho árduo era muito, as minhas consequências pesavam-lhe, mas eu estava cega- de olhos vendados. Eu não podia fazer nada.

Foram anos de caminhada, de uma luta infinita procurando uma luz para os meus olhos. Anos sozinha – ou passados com desconhecidos. Mas foi esse tempo, essa persistência, viver num mundo a preto, caminhar num lugar estranho, que me fez perceber o que realmente sou – essência.

E chegou a hora.

- Vais sentir uns sintomas estranhos – cócegas na barriga, pensamentos infinitos, um bater de coração forte e a cara corada. Mas é mesmo assim – viver é amar. 1, 2..., 3!

Tiraram-me a venda. Esse alguém que rastejou ao meu lado uma vida inteira. Então carreguei também o fardo que levava às suas costas, e juntos percorremos caminhos cegos ao mundo – abstraídos dos detalhes imperfeitos de quem não sabe o que é a cegueira.

Eu dizia que sabia o que sentia, tola que era. Não imaginava eu que dar valor às coisas não era vivê-las mas sim melhorá-las.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sopros da manhã


Foi naquela manhã fresca,
Embalada pelo canto
De ventos agitados
Correndo, soprando.

Foi nesse dia de amargura
Que dei por mim a sonhar.
Desejei, ingenuamente, ser a bravura
Que fez os ventos cantar.

Deram-me asas para voar,
Textura achatada para surgir,
Encobriram-me com um véu sem cor
E chamaram-me de “natureza que sabe sentir”.

Tornei-me no feitiço
Que seduz o coração
Do pobre vento Bojador
Que carrega o destino, agora sem razão.

 E é por isso que eu não desejo,
Porque se eu desejasse tudo se realizava.
- A vida é feita dos momentos
Com os quais eu não contava.

Sou apenas mais alguém,
Que sente a brisa da madrugada.
- Resultado de um vento perdido
Cujo canto não foi ouvido
Quando o sopro se fez rajada.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Há qualquer coisa que eu não gosto


Odeio fins. Odeio começos. Preciso de uma estrada de pedra, um percurso selvagem e palavras novas.

O intermédio é uma vasta solidão compreendida entre dois tempos felizes. É o fim e o começo, o compasso de espera, uma corda bamba sem sentido, um vazio sem história com personagens soltas que balançam de um lado para o outro, neutras.   

É um intervalo, não como um das três da manhã às cinco da tarde. Um daqueles sôfregos, infinitos – porventura. E nós nunca sabemos onde estamos - se no fim, se no inicio, se no meio. Nós nunca sabemos nada, vagueamos fingindo. E adoramos fingir saber. Loucos demoníacos diriam outros, sobre nós.

Não é que tenha medo de começos, mas do que vem antes. E não sei quando vem ou se julga vir. Não sei se me devo preparar ou é melhor chegar atrasada, para me notar. Sempre me disseram para começar com o pé direito, mas eu não sei o local, o dia, as horas, o ano em que começarei de novo.

Se calhar estou no fim, de algo. E é por isso que sinto um calafrio, os pés a gelarem e o relógio a adiantar-se. Quer chegar primeiro que eu , mas não me importo, afinal só vagueamos. 

E eu acredito e sempre vou acreditar, mesmo se da corda bamba não sair, que a vida é mais que conquistas supérfluas onde tentam o fim nunca atingir.  

Já passa da hora, eu sei. Tudo o que é bom vem atrasado, mas sempre perdura.