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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Recantos



Restos. Nesses cantos que pingam tristezas. Esses (re)cantos desajeitados, feitos demoras inúteis, esperas no tempo. Pedaços de vida adiados, escondidos nos cantos, escondidos da vista, escondidos dos modos. Refúgios secos, com lágrimas enxutas – meias loucas, meias fúteis. Salvações de quem não soube, como eu, de existir.

Lugares da sucata, do lixo que somos, da lixeira que fazemos. Lugares de cheiros, insípidos e tão pessoais, esgotos pestilentos feitos carne podre - memórias vitais.

Esses restos de nós, da nossa incomensurável insegurança sofregamente imprudente, trava-línguas da esperança que tanto se quer e não se ofende. Esconderijos da nossa falta de expressão, da ausência de pena – ausência de coração.

São grutas submersas, espelhadas de ganância – bugalhos de fúria caídos do céu, caídos da estância.

Estrume. Restos reciclados do que seremos. Reutilizáveis – as nossas queixas. Que é o que esta imunda casa guarda. Beco sem saída com toneladas de odores – fruto da história podre, desfeita, desusada dos nossos amores.

Num canto desencantado aqui jaz o nosso corpo – mouco – semente da esperança, da vida, do amor louco.  

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Rastejar



É a mudança
Que me acarta
Esse peso que já não sinto.
Tanto Minh ‘Alma se farta
Que rastejar já é instinto.

Pedir súplicas à piedade
Ou palavras ao amor,
Tornou-se loucura tão grande
Que emoções já não me surgem
E lágrimas são pudor.

Vem, que te espero,
Feitiço imaculado
- Que meu coração
Já não suporta
Fardo tão pesado.

Viver suplicando
Não é algo em que se invista.
Nem para quem,
Ausente de sentimentos,
Rasteja carregando mil e um tormentos.

Vem, que te espero,
meu bem entender.
Antes coração apunhalado,
Que fé assente sem abrigo,
Já que rastejar...
Eu não mais consigo.

domingo, 22 de abril de 2012

Não que quisesse

Vivia numa realidade sem noção,
Não que quisesse,
Mas porque já não a sabia sentir.

Já não a sabia tocar,
Nem comovê-la,
Nem nada
- Nem a amar.

Já não sabia surpreendê-la
E isso não foi surpresa.
Quem se alimentava da fome
Um dia havia de se tornar
Na sua própria presa.

Chamem-no de louco cativo,
Que louco ele assim é:
 Ri-se chorando
 Remando contra a maré.

Se criou um atalho à sua vida
Fê-lo para se prender
- Viva numa realidade sem noção,
Não que quisesse,
Mas porque nada mais havia a perder.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sopros da manhã


Foi naquela manhã fresca,
Embalada pelo canto
De ventos agitados
Correndo, soprando.

Foi nesse dia de amargura
Que dei por mim a sonhar.
Desejei, ingenuamente, ser a bravura
Que fez os ventos cantar.

Deram-me asas para voar,
Textura achatada para surgir,
Encobriram-me com um véu sem cor
E chamaram-me de “natureza que sabe sentir”.

Tornei-me no feitiço
Que seduz o coração
Do pobre vento Bojador
Que carrega o destino, agora sem razão.

 E é por isso que eu não desejo,
Porque se eu desejasse tudo se realizava.
- A vida é feita dos momentos
Com os quais eu não contava.

Sou apenas mais alguém,
Que sente a brisa da madrugada.
- Resultado de um vento perdido
Cujo canto não foi ouvido
Quando o sopro se fez rajada.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cartas Seladas


Em cada bilhete mandado
Há palavras rasgadas,
Palavras arrependidas
Feitas cartas seladas
- Segredos camuflados em feridas.

E as cartas vão e voltam
Num turbilhão de beijos,
Que guardam essas formosas letras
Escritas e desenhadas,
Mergulhadas em desejos…

Em cada frase te encontro,
Em cada palavra te perco.
Luto eu neste confronto,
Nesta batalha que não comecei
Onde apostei no meu amor
E onde nele confiei.

Só queria ter as minhas cartas,
As lindas e intensas declarações,
Onde eu te conquistei
Ao apunhalar mil e um corações.

Em cada frase te encontro,
Em cada palavra te perco…
Nessas cartas falhadas,
Pelos teus beijos seladas
- Onde o sonho é secreto...

sábado, 10 de dezembro de 2011

Utopia


Eram corais feitos de pérolas,
Frágeis e hostis,
Ao mergulhar eu os via,
O predilecto sonho da minha utopia.

O impossível nunca me chegou,
Queria mais e mais em frente seguir,
No fundo acreditava que quem a alma aquece
Ao topo havia de subir.

Eu tinha uma utopia
Que era sinal de história,
Fruto da minha juventude
Que ingenuamente acreditava na vitória.

Ao mergulhar,
Nesse gentil e bravo mar,
Eu via os corais,
Sensíveis ao toque,
Tão pouco e tanto reais.

Eu tinha, eu tenho
Uma utopia.
- De alcançar a minha história
Ao mergulhar
Numa dessas frentes de maré fria.

Corais duram,
Morrem sem o tempo,
Permanecem no calor,
E rejeitam a minha frágil dor.

Como posso eu conquistar essa tenebrosa utopia
Se o que mais preciso tem receio da minha gélida e tímida mão fria…

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

São coisas


Há coisas que nos falam,
Que nos enfeitiçam
E comovem,
Coisas estranhas e belas
Que nos escapam
- Fogem.

Há coisas que nos tocam,
Que são melodias
Do esquecimento,
Coisas vulgares e discretas
- Imortais no pensamento.

Há coisas…
Que por serem meras coisas
Tornam-se importantes.
Seres poderosos
Que reinam sobre as memórias
- Divagantes.

Por momentos jurei coisas não possuir,
Mas há umas que nos destroem
- Coisas simples,
Vulgares,
Que corroem
E deixam sucumbir.

Se destruída eu me vejo,
Destruída eu estou.
Pois há coisas que me falam,
Me tocam.
E uma delas me contou.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Há Quem



Há quem passe e não veja passar,
Quem olhe e não queira olhar.
Há quem sinta um pouco sentir,
Vivendo uma existência
De humano a sucumbir.

Assim fugiu enquanto pode,
Doloroso por não viver
- Este coração penoso
Que viu sua vida sofrer.

Há quem se magoe para salvar,
Quem se afogue para por a boiar
Aquilo que vemos a padecer,
A reminiscência do amor
- Querendo sobreviver.

Há quem passe e venha ajudar,
Quem olhe e venha acudir.
Parece que sou a única
A querê-lo abandonar
- Este amor,
Cujo dever é partir.

sábado, 12 de novembro de 2011

Cobarde Fogo


Cobarde fogo,
Sem chama que te valha
- És vergonha e medo
Em qualquer batalha.

Desobediente e imbecil,
És a morte de tantos,
E tantos por ti combateram
Só pela tua doença juvenil,
No qual todos arderam.

Tens cores ridículas
E ramagens obscuras,
Só a fama te salva
E é ela que te oferece
Essas perigosas aventuras.

Tu, que confundes
Os que não te entendem
E fazes sofrer os que te pretendem.
Fogo assaz e subtil,
Só de ti nasceram obras mil.

Se amor
“ É fogo que arde e não se vê”
Porque vejo todos a serem corroídos
Por uma chama tão viva
Que ate faz ruídos?

Se amor é chama cega
Deveria ao menos sentir o calor.
Mas este idiota a sucumbir
Prefere fingir a falta de visão ,
À falta de dor.