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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Palmas



Entrei vagarosamente na sala.

Respirei bem fundo todo o ar que podia, e algum mais. Era tentadora a ideia de escapar dali, fugir. Ainda ia a tempo de desaparecer. Mas a minha conduta, os meus ensinamentos, as minhas memórias e o próprio ar que respirei prendiam-me - de certo modo – àquilo que eram quatro paredes pintadas de um vermelho escuro, que sufocavam o espírito de quem quer que nelas se encontrassem.

- Sente-se.

E eu sentei-me. Estava acomodada sobre um banco lilás forrado a azul-marinho, que me incutiram. Eu sabia que tinha de obedecer às ordens daquele sujeito. Todos o admiravam, diziam-lhe ser um génio. Só eu não nutria tais sentimentos por aquela figura cujo objectivo era manipular a minha mente e fazer dela o seu brinquedo. Aliás, detestava-o.

- Diga-me, porque está aqui?

Deve ser daquelas perguntas que todos os psicólogos teimam em dizer, insuportáveis. Não respondi, não me apeteceu. Para quê responder a alguém que não me conhece, nem a mim nem à minha vida, não sabe quaisquer palavras do meu característico vocabulário, nem sabe quais foram os meus gloriosos momentos. E bem, quem não me conhece não merece resposta.

- Vamos ficar assim, neste estado de silêncio por mais quanto tempo?

Sim. Isso. O silêncio agradava-me, principalmente ali naquele cúbico que pressiona as pessoas. Desde a primeira sessão que tinha decidido fazer silêncio, afinal de contas não estava ali por querer, mas porque me obrigaram. Por vezes penso que as pessoas têm medo de estar com alguém diferente, criativo. Só essa pode ser a explicação para me encontrar neste local, não me suportarem – nem a mim nem às minhas divagações estúpidas e sem sentido -  dizem.

- Cara rapariga começo a saturar-me das tuas birras infantis, estás a desperdiçar o meu tempo.

Tem tempo. Disse ele. Também eu tenho – talvez contado, ainda não sei. Não tarda hei de descobrir. Cada sessão é quarenta e cinco minutos, trinta dos quais já tinham passado. Eu sei e no fundo ele, o psicólogo, também sabe que a única forma de me ajudar é o silêncio. É sentir o nada e pensar no muito, assim, sozinha, sem ninguém a ajudar-me. Dizem que crescemos sozinhos e que nada nem ninguém nos deve ajudar, pois só assim podemos aprender. Mas então, que está ele a fazer-me? A proibir-me de crescer, de aprender, de sofrer. Eu quero sofrer, acho que ainda não perceberam isso. É tudo tão melhor quando se sente verdadeiramente as coisas e não escapamos delas como gatos escapam da chuva.

- O tempo acabou, espero que tenha percebido que foi a nossa última sessão. Nada mais posso fazer por si.

Levantei-me. Tinha chegado a hora. Pronunciei-lhe talvez, se não nos virmos a encontrar no futuro, as primeiras e últimas palavras desde que me obrigaram a passar quarenta e cinco minutos das minhas sextas-feiras naquele espaço.

- Deixo as minhas próprias injúrias para comigo, as suas palavras já lhe custam demasiado a ser pronunciadas, para que deveria eu ainda as estagnar mais ao falar. Obrigado Doutor, agora é tempo de verdadeiramente me ultrapassar.

Acho que fechei uma etapa, não uma de revolta mas de pura emoção. O verdadeiro herói é aquele que saúda os seus inimigos. Eu cá acabei de me saudar. Palmas.

domingo, 23 de outubro de 2011

Memórias Suicidas


São três da manhã do dia que nunca chegou. Encontro-me sentada sobre uma pilha de papéis desorganizados, formam um ambiente hostil e dão um certo ar de instabilidade a tudo o que se possa encontrar por ali. Ironicamente é o único lugar onde gosto de estar – frio, nada aconchegado, solitário e nostálgico. Sinto-me um pouco assim, as minhas memórias incomensuráveis teimam em ser livres, mas quem sou eu para lhes dar asas se nem pés posso oferecer.

Esta luta interna e paciente vai esperando pelos segundos que nunca acontecerão. Obrigo-me a ser escrava e submissa de memórias feitas em pegadas anos antes, sentimentos de anos antes, lágrimas de anos antes. Mas que perduram e não se atrevem a fugir de mim. Por estas alturas desejo ser tudo o que ninguém quer ser, e imagino-me repugnante para me deixarem, isto que me assombra. Que me deixe.

E sentada no local onde estou pouco há mais a fazer a não ser pensar, em tudo o que rastos de actos mal feitos fizeram notar e que insistem, manipulam-me a permanecer. As marcas na pele, no coração e no pensamento continuam vivas e sem maneira de morrerem ou desfalecerem, já deixei de acreditar que cometeriam suicídio, e eu própria não possuo as forças para as matar. Não me importo que seja crime matar memórias, prefiro-as mortas e enterradas, talvez em cinzas, do que a despertarem dia sim, dia não o ser que há em mim que há anos que escondo.

Vou continuando à espera que elas, as memórias, envelheçam e comecem a perder a sensibilidade aos sentidos, vou ficar aqui, sentada, à espera de as ver cegar, de ficarem surdas e mudas até perderem o tacto e depois ver desvanecer os pensamentos de uma vida que elas tanto quiseram guardar. Suplicar-me-ão para as matar, ou dar asas, pelo menos para abafar as dores da velhice que a ninguém nem a nada escapa. Nessa altura eu continuarei sem forças, mas elas, fortes e no auge do sofrimento cometerão suicídio. Piedosamente eu as reconfortarei.  

São cerca de quatro da manhã do dia que não tem minutos nem segundos, mas que ingenuamente eu continuo a contar. Não sabendo o porquê, vou ficando à espera das asas que levarão metade da minha alma.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O azar de ter sorte


Pode não ser muito, pode ser só um pouco, a visão do horizonte profundo onde tu gritas como um louco. Pode ser um resto, um começo ou um meio, o certo é que no fim tudo se resume à sorte lançada em cheio.
E o tempo passa, dizem ser remédio, mas que tempo é esse que não é o meu onde apenas avisto tédio? E o tempo continua, lento como sempre, rápido como tudo…Apanha-nos nas suas armadilhas onde só escapa aquele que é sortudo.
E o relógio conta as horas, por vezes até os segundos, não se poupa nas demoras nem se aflige com a rapidez, este contador ingrato até talvez nem se dê com a lucidez.
Vou então pedir ao que me transcende, que faça o que for preciso, que me emende, não sei o que é, não tem definição…mas peço-lhe, imploro-lhe que pare este tempo similar a um furacão.
E para todos aqueles que afirmam que a sorte não deve haver, tenho como prova o meu histórico que dita que comigo ela não se fez comprometer. E para todos aqueles que dizem que azar é mero mito, venham-me procurar - quero-vos mostrar como se fica depois de anos a tentar escapar.
Hoje o tempo passou por mim, contou os segundos e nem reparei, talvez amanhã venha a contar os milésimos e daí ressuscitarei.  Podem ser anos a fugir, noites a sonhar, meses a progredir e depois atrás voltar. Podem ser horas desperdiçadas, segundos esquecidos, mas em cada um há algo que me fascina, os milésimos incontáveis, e cada um me domina.
Agora sei, mais do que percebi, que a solução já a alcancei e nem isso senti. Agora sei, tempo não conta, sorte não compromete, estarei sempre por minha conta e ao sabor da vida o azar me remete. Agora entendo - sou vida, tempo, relógio, uma alma crescendo!
E quando te vires atraiçoada pela sorte, vira-te para o azar, esse compreende-te e dele apenas o pouco podes esperar. Um dia mais tarde me perguntarão se alguma vez tive alguma desilusão e eu orgulhosamente proclamarei que o azar foi a única coisa com que na minha vida me deparei.